Como é inevitável, a indústria procura, nesta conjuntura, repassar os aumentos dos seus custos e restabelecer a margem de lucro. No entanto, encontra agora forte resistência do comércio varejista, travando-se verdadeira queda-de-braço entre os dois setores.
O comércio está consciente de que ganhou muito com a decisão do governo de privilegiar o consumo como mola do crescimento econômico, usando a expansão do crédito e o aumento do número de consumidores para consolidar uma nova classe média. Não pretende, pois, renunciar a essa situação, embora a alta dos juros possa representar um freio ao ritmo de crescimento da demanda.
A indústria, por seu lado,quer repassar a elevação dos seus custos, recuperar suas margens de lucros e, também, se preparar para um novo fator de aumento de custos: a desvalorização cambial.
Os interesses são dificilmente conciliáveis. O comércio, sabendo que o faturamento da indústria depende das suas compras, empenha-se em resistir aos aumentos de preços que considera exagerados. A primeira reação das lojas é comprar as mercadorias que apresentam os menores aumentos: assim, ficam eliminados produtos em que se paga o custo da marca. As empresas varejistas procuram novas marcas, cujo preço de lançamento seja menor.
A maior concentração do comércio varejista facilita, certamente, a resistência aos pedidos exagerados da indústria. Aliás, verifica-se que as grandes empresas industriais (exceto as multinacionais), por terem um custo menor, têm mais condições de nivelar ou reduzir seus preços, o que não é o caso das pequenas indústrias.
O grande argumento do comércio é que já se está verificando uma queda dos preços das commodities e se está anunciando uma safra agrícola muito boa, que deverá propiciar a queda das cotações dos produtos alimentícios que, justamente, são os que tiveram maiores altas de preços pedidos pelas indústrias.
O comércio já está verificando que sua clientela, cuja renda real não aumentou como no ano passado, tem buscado os produtos mais baratos e procura se adaptar a essa mudança.
A indústria que realizou grandes investimentos para aumentar sua capacidade de produção e continua investindo, segura de que o consumo vai aumentar, se encontra numa posição que não lhe permite perder as compras do comércio. É um quadro certamente favorável à contenção da inflação.